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Julie Zhuo: seu diferencial em IA não é talento, é vontade
A designer Julie Zhuo divide o valor humano em capacidade, gosto e agência. A IA já ganha nos dois primeiros. Sobra a vontade de decidir e de fazer bem feito.
Enquanto boa parte do debate sobre IA gira em torno de qual modelo é mais esperto, a designer Julie Zhuo fez uma pergunta mais útil para quem constrói produto: quando a máquina fizer quase tudo melhor que você, o que sobra de valor no seu trabalho? A resposta que ela desenvolve na newsletter The Looking Glass, a partir de uma conversa com Ivan Zhao, fundador do Notion, é um mapa simples e desconfortável. E termina num lugar que não é habilidade nem bom gosto.
Zhuo divide a contribuição humana em três camadas. A primeira é a capacidade: as habilidades e o conhecimento que você tem, de acender uma fogueira a escrever um site. A segunda é o gosto: seus valores e preferências, o que te atrai e o que você considera excelente. A terceira é a agência: a vontade e o impulso de agir, o "eu me importo o suficiente para fazer isso". Capacidade define o que você consegue fazer, gosto define o que você quer fazer, e agência define o que você de fato vai fazer.
A capacidade já era
A parte da capacidade, Zhuo trata como caso encerrado, e é difícil discordar. Cada geração viu a tecnologia ultrapassar os humanos num novo terreno. Primeiro caíram as habilidades físicas: máquinas aravam, carregavam e fiavam mais rápido e sem cansar. Depois caíram as analíticas: a calculadora, os algoritmos de fraude, os programas que derrotaram os campeões humanos de xadrez e de Go. Agora caem as criativas, com modelos que escrevem, desenham, programam e compõem em nível profissional.
O ponto dela não é que a IA já venceu todos os especialistas, porque nos degraus mais altos de raciocínio e inovação o melhor humano ainda ganha. O ponto é a direção da seta. Com paciência infinita e velocidade inesgotável, a máquina vai ocupando faixa após faixa. Apostar a sua carreira, ou o seu produto, na ideia de que a capacidade bruta continuará sendo o seu diferencial é apostar contra a maré.
O gosto era um refúgio frágil
Aqui está a parte que incomoda. A sabedoria convencional diz que o gosto, a capacidade de reconhecer o excelente antes dos outros, é o último bastião humano. Zhuo desmonta esse conforto. Bom gosto, argumenta ela, é mais objetivo do que gostamos de admitir. Quando você diz que alguém tem "ótimo gosto musical", é porque essa pessoa acerta com frequência o que um público exigente vai valorizar. Ou seja, o gosto é, em boa medida, um motor de previsão treinado em muita exposição e estudo do ofício.
E previsão é exatamente o que a IA faz bem. Um sistema pode absorver o mesmo repertório que o melhor curador, acompanhar as preferências das comunidades de vanguarda e aprender a prever, com precisão crescente, o que uma pessoa refinada vai apreciar. Visto como máquina de prever, escreve Zhuo, o gosto humano é bem mais vulnerável do que a gente admite. Ela abre uma exceção honesta: no topo, o gosto vira criação de movimento, o gesto de bancar publicamente o que ainda parece estranho, como quem redescobre um artista esquecido e convence o mundo a revê-lo. Esse tipo de coragem cultural resiste melhor. Mas o gosto do dia a dia, o de reconhecer o que já é bom, não é o fosso que imaginávamos.
O fosso é a agência
Se a IA alcança ou supera o humano em capacidade e em gosto, o que resta como nosso? A resposta de Zhuo é a agência: a vontade e a motivação de agir de acordo com os próprios valores. Ela volta a uma frase de Wittgenstein que abre o ensaio: quando o olho vê algo belo, a mão quer desenhá-lo. A capacidade é a mão saber desenhar. O gosto é o olho saber o que é belo. A agência é a vontade de mover a mão.
Num mundo em que capacidade e até gosto viram commodity, a vontade da mão de agir segundo nossos valores pode ser o nosso recurso mais raro e precioso.
Falamos da "agência" dos sistemas de IA, lembra ela, mas o que isso quer dizer é deixá-los otimizar algum objetivo programado. Quem define o objetivo ainda somos nós. A IA não sente a importância do problema; nós é que decidimos qual problema merece existir e nos importamos o bastante para persegui-lo. Por enquanto, somos a fonte de escolha intencional no mundo: escolhemos o que otimizar e o que preservar.
O que isso muda para quem opera IA
A tese de Zhuo é sobre pessoas, mas serve como estratégia de time. Se capacidade virou commodity, o pior investimento que uma equipe pode fazer é treinar gente para competir com o modelo naquilo que o modelo já faz melhor e mais barato. O melhor investimento é migrar o esforço humano para a camada da agência: decidir o que construir, para quem, com que critério de qualidade e por quê.
Na prática, isso rima com coisas que já defendemos aqui. É o espírito de contratar a IA para um trabalho específico do cliente, e não pela moda, de usar uma árvore que liga oportunidade a resultado antes de sair codando, e de aceitar que, com a execução barata, o gargalo do time passa a ser redesenhar o trabalho, não produzir mais dele. A IA gera dez propostas em um minuto; o valor está em quem escolhe a certa, corta as nove e banca a decisão.
Vale um contraponto, e a própria Zhuo o levanta ao citar leitores: talvez a agência também não seja tão exclusiva assim, já que nossa vontade nasce de genes, cultura e experiência, uma espécie de programação de longo prazo. É um debate aberto e legítimo. Mas, para efeitos de quem tem um time e um roadmap na segunda de manhã, a conclusão prática se mantém: o diferencial não está mais na mão que executa, e sim na cabeça que decide o que merece ser feito e na vontade de terminar bem. Nesse deslocamento está boa parte do que separa um time que usa IA de um time que só a consome.
Se o seu time ainda mede valor pela quantidade que produz, e não pela qualidade das decisões, chame a gente no WhatsApp para redesenhar rituais em torno de julgamento, e não só de volume.
Fontes
Perguntas frequentes
Quem é Julie Zhuo e por que ouvi-la sobre IA?
Julie Zhuo foi uma das primeiras designers do Facebook e chegou a vice-presidente de design de produto, liderando as interfaces usadas por bilhões de pessoas. Depois cofundou a Sundial, empresa de dados para produto, e escreveu o livro The Making of a Manager. Hoje mantém a newsletter The Looking Glass, onde investiga como a IA muda a forma como trabalhamos, criamos e nos relacionamos. Ela fala de dentro do ofício de construir produto, não da arquibancada, e por isso sua leitura sobre o que a IA tira e o que ela deixa vale a atenção de quem coloca IA em produção.
Se a IA vence em capacidade e gosto, o que fazer com isso na prática?
Parar de treinar o time para competir com o modelo naquilo que o modelo já faz melhor, e realocar esforço para as decisões. Em vez de premiar quem produz mais rápido, premie quem escolhe melhor o que vale ser feito, para qual cliente e com qual critério de qualidade. Na prática, isso vira ritual: revisar propostas pela nitidez do julgamento, não pelo volume; usar a IA para gerar opções e reservar o humano para decidir entre elas; e manter alguém responsável por dizer não. A vantagem deixa de ser a mão que executa e passa a ser a cabeça que direciona e a vontade de terminar bem.