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John Cutler: o mandato de IA mata a agência que ele exige

John Cutler mostra por que mandato de adoção de IA destrói autonomia, competência e pertencimento, as três condições que fariam a adoção acontecer de verdade.

Tem uma cena que se repete em toda empresa em 2026. O líder anuncia com orgulho tudo o que está fazendo para "acelerar a adoção de IA", cobra iniciativa, mede quem prompta mais, e depois se espanta com a resistência do time. John Cutler, um dos escritores mais lidos sobre produto e formas de trabalho, olhou para essa cena e escreveu a frase que a resume: as empresas estão destruindo, uma a uma, as condições que fariam a adoção de IA acontecer de verdade, e depois chamam o resultado previsível de "problema de mentalidade".

O texto se chama TBM 425: AI and Agency, saiu em junho na newsletter dele, The Beautiful Mess, e é a leitura mais honesta que apareceu sobre por que os mandatos de IA emperram. Vale trazer a tese, com crédito, porque ela mira exatamente quem coloca IA em produção com pessoas, não com slides.

Resistência não é preguiça, é conta de anos

O ponto de partida de Cutler é desmontar a explicação preguiçosa. Quando alguém do time hesita diante da IA, o líder rotula: falta curiosidade, falta motivação, falta "agência". Cutler vira a mesa. "Ninguém está fazendo a pergunta mais difícil", ele escreve: o que as nossas empresas fizeram para erodir tanta confiança e lealdade a ponto de as pessoas naturalmente questionarem esses mandatos? Anos de demissões, reorganizações, promessas quebradas e gente tratada como peça intercambiável, e agora há surpresa quando o time não engole o "isso vai ser ótimo para você" de cara.

A distinção que ele faz é fina e importante. O discurso soa como "isso é para o seu crescimento", mas a estrutura, e qualquer leitura minimamente atenta das entrelinhas, diz "isso é para a nossa meta do terceiro trimestre". A empresa coopta uma jornada pessoal, o aprendizado de como a IA cabe no seu ofício, e a rebatiza de empoderamento. A pessoa sente, e reage.

Agência mora no ambiente, não só na cabeça

O coração do texto é uma correção conceitual. Quase tudo no discurso de adoção de IA trata agência como um traço individual que você tem ou não tem. Cutler, citando Bandura, lembra que "a agência pessoal opera dentro de uma ampla rede de influências socioestruturais". As pessoas são, ao mesmo tempo, produtoras e produtos do ambiente. Um ambiente pode ser um convite à agência ou um limitador dela.

Ele traz duas referências que dão músculo à ideia. Ursula Franklin alertava que tecnologias prescritivas "eliminam as ocasiões de decisão e julgamento" e produzem "uma cultura de conformidade e obediência". É o que o mandato faz: transforma uma ferramenta exploratória num exercício de compliance. Ivan Illich separava ferramentas conviviais, que dão à pessoa "a maior oportunidade de enriquecer o ambiente com os frutos da sua visão", das manipulativas, que "permitem aos seus projetistas determinar o significado e as expectativas dos outros". A IA pode ser uma ou outra, diz Cutler. Do jeito que a maioria das empresas está implantando, é a segunda.

Há uma passagem que resume o sentimento do chão de fábrica, na fala de um amigo dele: "Não sou anti-IA. Sou contra o jeito que a minha empresa fala dela. Uso IA todo dia, tenho curiosidade genuína. Mas quando meu gestor diz que preciso 'mostrar mais iniciativa em IA', não me sinto inspirado, me sinto gerenciado. Tenho vinte anos resolvendo problemas difíceis, e agora a medida do meu valor é se estou promptando o bastante? Me dê um problema real, espaço para descobrir se a IA ajuda a resolver, e saia do caminho."

As três alavancas que o mandato quebra

Cutler ancora o argumento na Teoria da Autodeterminação, de Deci e Ryan: motivação genuína precisa de três coisas, autonomia, competência e pertencimento. E mostra como o discurso de adoção de IA ataca as três de uma vez.

Autonomia: "todo mundo vai usar IA" troca escolha por mandato, e remove justamente o que faz a adoção parecer agência em vez de obediência. Competência: a IA desvaloriza habilidades duramente conquistadas enquanto exige novas no prazo de outra pessoa; o recado implícito é "o que você era bom importa menos agora, corra atrás". Pertencimento: a narrativa do "superpoder individual" premia quem age sozinho, e quando uma pessoa consegue driblar o time, a colaboração não é ampliada, é marginalizada.

O passo seguinte do raciocínio é o que dói. Fazer isso no exato momento em que a tecnologia já levanta perguntas difíceis sobre agência humana, sobre para que servimos e o que só nós fazemos, é remover das pessoas justamente aquilo de que elas mais precisam. Claro que empurram de volta. Claro que desengajam.

O que fazer com isso na sua operação

A parte prática é o que separa o texto de Cutler de um desabafo. Ele fecha com três perguntas que qualquer líder de IA deveria responder antes da próxima cobrança de adoção. Estou criando um ambiente onde as pessoas desenvolvem agência com IA, ou estou impondo compliance e chamando de adoção? Quando alguém do time questiona a IA, trato isso como sinal para ouvir ou como problema a corrigir? Consigo dizer, em voz alta e para as pessoas que peço para mudar, quem exatamente se beneficia desse esforço de IA e em que horizonte de tempo?

A recomendação de fundo é simples e difícil: este é o momento que pede melhoria contínua coletiva. Aprender junto, experimentar em segurança, compartilhar o que funciona, iterar em como o time opera. O oposto do mandato. Isso conversa direto com o que Ethan Mollick vem dizendo, que gerir a IA vale mais do que dominar o prompt, e com a ideia de que o gargalo da IA hoje é o julgamento humano, não a máquina. Cutler adiciona a camada que faltava: julgamento não floresce em ambiente que pune a dúvida.

A nossa leitura é que Cutler está descrevendo o custo escondido da pressa. A empresa que trata adoção de IA como número de compliance colhe uso de fachada e agência destruída. A que dá problema real, espaço para testar e autonomia para decidir, colhe pessoas que de fato descobrem onde a IA ajuda. A diferença não está na ferramenta. Está em quanta agência a sua empresa está disposta a devolver para as pessoas que vão usá-la. E, numa época em que é fácil confundir mandato com estratégia, essa talvez seja a decisão de IA mais importante que um líder toma.

Se você quer montar um programa de IA que devolva agência ao time em vez de virar mais um mandato, chame a gente no WhatsApp que a gente ajuda a desenhar.

Fontes

Perguntas frequentes

Qual é a tese de John Cutler sobre adoção de IA?

Que as empresas destroem sistematicamente as condições que tornariam a adoção de IA genuína e depois chamam o resultado previsível de problema de mentalidade. Ao impor mandatos, elas removem autonomia, desvalorizam competências e premiam o trabalho solo, minando justamente a motivação que diziam querer despertar.

Quem é John Cutler?

É um dos escritores mais lidos sobre produto e formas de trabalho, autor da newsletter The Beautiful Mess. Escreve há anos sobre métricas, times e a cultura das organizações de produto. O texto citado aqui, TBM 425: AI and Agency, saiu em junho de 2026.

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